21.10.18

Dos religiosos que se omitem

É notável que alguns grandes líderes religiosos e espiritualistas, muitos não tão grandes assim, têm mantido uma postura neutra diante do momento político do país. Acho louvável que eles não estejam tomando partido.

No entanto, agora não se trata de tomar partido. Não se trata mais de política ou de partidos. Não se trata mais de direita ou esquerda. A situação verteu-se em uma luta travada entre a democracia e a ditadura.

Nem raiaram ainda os dias mais tenebrosos e já temos manifestações de violência e preconceito. As perseguições já começaram.

E qual será a postura destes "líderes espirituais" quando o dia transformar-se em noite? Cruzarão os braços para não perder fiéis? Será que desconhecem que suas atitudes também incidirão sobre os próprios karmas?

Farão como fizeram os fariseus e os saduceus do Sinédrio? Como fez parte da Igreja Católica no amanhecer do III Reich?

Exemplos temos às pencas. Inquisição, perseguições aos cristãos, bispos do fascismo, dizimação dos índios. E os "sacerdotes" se calavam...

Lavar as mãos diante das atrocidades para não perder fiéis e em nome do bem estar espiritual também é uma forma de egoísmo.

Omissão também é pecado. E isso certamente será contabilizado no Karma de vocês.

9.10.18

CRÔNICA DE UMA FAMÍLIA DESAJUSTADA NO AMOR

José Naldo tinha três filhos, uma menina e dois meninos. Era casado pela terceira vez. O primeiro a nascer foi Élio Naldo, o mais porreta e arretado de todos. O segundo foi Fernando, o mais estudioso e calado. Na terceira gestação de sua mulher veio uma menina.

Sua esposa, Márcia, era uma típica dona de casa, com afazeres domésticos diários. O menino mais velho era o orgulho macho da família. Lutava Jiu Jitsu, fazia academia, comia um monte de menininha. Já o segundo, o filho do meio, era retraído, chegava a irritar o pai. A menininha Mariana era a princesinha linda, sempre arrumadinha e de melissinha no pé.

Todos cresceram e a mulher nunca pode trabalhar fora. Tomava um antidepressivo pela manhã, e dois ansiolíticos, um à tarde, outro à noite para dormir. Era uma mulher frustrada, reprimida pelo machismo de seu esposo opressor. Infeliz e doente.

Certo dia, sua princesinha, que já contava 21 anos, depois de um ano ensaiando em apresentar seu namorado à família, teve a coragem de apresentá-lo numa tarde de domingo. Assim, Pedro Luís, um mulato que cursava o último ano de Admnistração, foi anunciado à família por Mariana. Ele entrou apenas uma vez na casa para nunca mais voltar. José Naldo proibiu o namoro dizendo que havia dado educação aos filhos e que não admitia que eles saíssem da linha. Mariana ficou inconsolável. Depois de alguns anos, Mariana foi morar em Londres para estudar e nunca mais voltar.

Já o filho mais novo, que começara a estudar Psicologia, não parava em casa. Chegava tarde da noite, muitas vezes bêbado. Numa ocasião, José Naldo teve uma surpresa quase infartante. Um amigo de longa data soube que Fernando se relacionava mais intimamente com meninos. José Naldo ficou furioso! Assim que Fernando chegou da faculdade, Josê Naldo o agrediu verbal e fisicamente, machucou bem. Proibiu o rapaz de andar com aquela turma de desviados. No entanto, Fernando não obedeceu a seu pai. Não havia outra alternativa se não colocar o moço pra fora de casa.

Élio Naldo sempre honrou o papel de macho. Puxou ao pai. Foi ser advogado.Adorava andar a 200 por hora com seu possante automóvel, agrediu namoradas uma dezena de vezes e amava caçar e pescar.

Já a esposa dedicada, dona de casa e mãe dos três filhos, era extremamente infeliz. Ela também sabia que o marido mantinha um imóvel só para levar a amante.

Naquela casa havia disciplina e ordem. Todo mundo andava nos trilhos!

Uma mãe triste, amargurada e desiludida, volta e meia doente psiquica e fisicamente. Encarcerada na redoma da infelicidade.

Um filho mais velho idiotizado, violento e preconceituoso.

Um filho mais novo, hoje homossexual assumido, mas deserdado da família.

E uma filha que havia sofrido racismo anteriormente e que, por conta deste episódio e de outros tantos, preferiu abandonar a casa.

José Naldo realmente havia colocado ordem e disciplina na casa.

Uma casa cuja família é tradicional e ordenada, alinhada aos padrões mais convencionais de moral e de bons costumes.

Uma família vazia e sem amor.

8.10.18

CARTA TRISTE CONTRA O HOLOCAUSTO BRASILEIRO

Não é mim por mim, nunca foi por mim.

Se eu apenas me sentasse no meu perfil de homem branco, europeu, heterossexual e de meia idade, eu estaria absolutamente confortável, seja lá qual fosse o resultado destas eleições para presidente.

No entanto, por pensar nas mulheres, nos negros, nos índios, nos homossexuais e nas crianças, eu perderei todo o meu tempo para lutar.

Lutar para que os negros não sejam considerados como sub-raça e que os quilombolas não sejam pesados em arrobas como bois. Lutar pelos gays e lésbicas, para que eles não sejam agredidos fisica e moralmente. Lutar pelos índios que têm muito mais direito às terras, haja vista que estavam aqui primeiro. Lutar pelas mulheres para que elas possam, de fato, ser iguais em direitos, e que não sejam encaradas como uma fraquejada do destino e nem sejam chamadas de vagabundas. Lutar pelas grávidas para que elas sejam salvaguardadas de lugares insalúbres. E, por fim, lutar pelas crianças, para que seus movimentos das mãos não sejam apontados para as armas.

Eu não luto pelos meus direitos, luto pelo direitos destas pessoas.

Um dia, a Alemanha escolheu um salvador da pátria que bradava contra a corrupção e pregava o nacionalismo autoritário. Dez anos depois, teve que se esconder como um rato dentro do seu bunker. A Itália também preferiu lançar mão do fascismo. Dez anos depois seu líder foi executado.

O que viveremos no Brasil daqui pra frente? Será que conseguiremos ir às ruas sem sermos caçados? Será que terei que queimar todas as minhas camisas vermelhas para que não sejam sujas de sangue? Será que os meus irmãos LGBTs terão que esconder suas identidades de gênero para não serem dizimados em praça pública? Será que os pais fardarão seus filhos e os pequenos brincarão de soldados para defender o país de uma ameaça comunista? Será que os índios terão que ser confinados num cubículo de terra ou se adaptarem à "civilização" vendendo balas no farol ou pedindo esmolas? Será que os negros poderão se sentar à mesma mesa dos brancos sem que seja preciso serví-los?

O Brasil agora terá a chance de viver seu holocausto.

E quem irá para a câmara de gás é o povo brasileiro.

4.10.18

Visão do Inferno

Noite de 28 de outubro, domingo, após as eleições.
A turba nazifascista sai às ruas para comemorar o resultado que colocou seu líder no mais alto posto da República. Enquanto isso, a esquerda chora e promete não dar trégua. A vida segue, e o país, dividido. Mais quatro anos de sofrimento e dor, e agora acompanhados pelo medo e pelo preconceito. Armas liberadas, perseguição.

Noite de 28 de outubro, domingo, após as eleições.
A esquerda empunha suas bandeiras vermelhas e vai às ruas comemorar o resultado que colocou o candidato do Lula no poder máximo. Enquanto isso, hordas furiosas prometem quebrar tudo e, assim, o fazem. Pessoas são agredidas e perseguidas, centenas de presos. A militância de esquerda começa a revidar. O caos é total.

Generais e togados se reúnem e decidem uma Intervenção Militar Emergencial para a garantia da lei e da ordem. O golpe militar dá seu primeiro passo.

O Congresso Nacional é fechado. E as Forças Armadas declaram, com o decreto do presidente Temer, que as eleições majoritárias estão anuladas.

Dia 1º de janeiro de 2019, ano novo, vida nova. Com o cargo de presidente vago, um militar, de alta patente, assume interinamente a presidência da República. O golpe militar foi dado.

O tempo que vai durar? Mais vinte anos?

2.10.18

A RESISTÊNCIA DA IGNORÂNCIA E O FASCISMO INTERIOR

Quando eu era adolescente, em plena década de 1980, eu frequentava um bar de esquina que vendia bolinho de ovo. Eu adorava! Lá havia sinuca, fliperama e uma turma heterogênea. Naquele bar tinha de tudo: mendigos, prostitutas, estudantes de classe média, bêbados...

Certa vez, um carroceiro com mão pesada, entre um gole e outro de cachaça, mexia com aquele que ele chamava de "viadinho pernambucano". Naquela época não existia o termo "gay", era viado ou bicha mesmo. Valdemiro era seu nome. Não tardou para que o rústico trabalhador truculento deferisse um tapa de mão aberta na cara de Miro, assim, do nada... E Miro indignado saiu chorando do bar... Eu fiquei horrorizado. Ninguém fez nada, só o dono do bar reclamou e pediu para que ele não fizesse mais isso.

Naquela época ser homossexual era uma ofensa, quantos apanharam...Eram julgados como sem vergonhas...

Em 1989 eu presenciei uma cena nojenta de racismo. Naquele tempo eu era dono de uma locadora de vídeo na Vila Monumento, em São Paulo. Eu tinha um amigo de infância, o Antonio, que veio trabalhar comigo como atendente. Numa noite, entrou um cidadão alterado e foi atendido pelo Antonio. Eu estava ao lado dele. Do nada, o sujeito invocou com a cara do meu amigo e começou a gritar: - Negro sujo, vem pra fora que eu vou matar você. Preto imundo! Berrava tanto que pensei em chamar a polícia. Confesso que fiquei com medo do cara estar armado. graças a Deus, o cão raivoso foi embora e ficamos sem ação. Anos depois, eu vi meu amigo negro curtindo a página de um político racista. Eu não entendi.

As décadas de 70, 80 e 90 eram recheadas com manifestações preconceituosas. Frases como "Nego quando não caga na entrada, caga na saída"; "Mulher no volante, perigo constante"; "Prefiro meu filho pegador do que viado", e por aí vai...

O mundo mudou (ainda bem!) e tivemos que nos adaptar à nova realidade. Antes, eu ficava chocado quando observava duas mulheres se beijando, é preciso ser honesto para confessar seus pecados. No entanto, tive que mudar meus conceitos e reverter meus preconceitos. Não, não admiro espetáculos públicos de sexo, sejam eles hetero ou homossexuais. Mas, quando vejo dois homens ou duas mulheres se beijando e entrelaçando os dedos das mãos atualmente, é uma imagem para mim absolutamente comum. Foi uma conquista, não?

No entanto, nem todo mundo rompeu com estes paradigmas e cresceu como consciência e cidadania. Boa parte do Brasil é preconceituosa. Muitas pessoas dão risada quando escutam que os quilombolas gordos pesam arrobas como se fossem bois. Muitos concordam que o filho ser homossexual é falta de porrada e que as mulheres nascem de uma fraquejada do espermatozoide. São os mesmos que estrondam "Vagabunda" pelos estádios. A mesma turma que joga banana no gramado para um jogador negro ou que xingam o goleiro de bicha quando este bate o tiro de meta.

Estas pessoas estagnaram no tempo e no espaço, não acompanharam as mudanças sociais e espirituais e o pior, não as respeitam. São a resistência da ignorância.

Estas pessoas colocarão assim um grande representante do seu fascismo interior que, nada mais é, que o espelho manchado de suas almas sombrias.

24.9.18

Nós não somos estátuas de sal


A Bíblia conta a história de Ló e de sua família que foram salvos por Deus da destruição de uma cidade inteira. Todavia, o Senhor recomendou que ninguém olhasse para trás sob a pena de ser morto.

Na rota para a fuga, a esposa de Ló não suportou a curiosidade e o apego e, disfarçadamente, colocou seus olhos para a cidade jazida. Imediatamente aquele olhar transformou a esposa de Ló numa estátua de sal...
Como na história, quando tudo desabar em sua vida e você achar um caminho para a salvação, olhar para trás seria o mesmo que virar uma estátua de sal.

Caminha para frente.

Deixa os escombros do teu passado, não os revisite, mas aprenda com eles. Olhe para dentro de si, ao invés de mirar as destruições que você mesmo ajudou a criar.

Desapegue-se dos tijolos que voam, dos telhados que desabam, das paredes que ruem. Deixe que o Criador faça Sua parte na reconstrução da tua vida.

Reconstrua-te a cada instante.

Tudo pode abalar, menos o teu coração.

Tudo pode ruir, menos a tua alma.

Erija a tua vida com as pedras preciosas do teu próprio amor.

Tua vida recomeça em cada momento de destruições.

Segue em frente, enfrente e seja uma fortaleza de amor e fé. Nunca uma estátua de sal.

21.9.18

O MAYA DA MERITOCRACIA E DA OSTENTAÇÃO


O Brasil foi educado a pensar como elite. Sempre foi assim. O pensamento neoliberal da "meritocracia" escancarou uma mentira: você vai ficar "bem de vida" se trabalhar com dedicação e afinco e servir ao seu patrão incondicionalmente. Assim você chegará lá! Ledo engano. Qual o percentual de trabalhadores e profissionais que deram seu sangue e seu alma em prol de um empreendimento ou de um negócio e ficaram ricos? Diga-me com sinceridade.

É certo que o trabalho enobrece o homem, dignifica. Mas, o mercado devorador de energia promete que se você roer o osso, no futuro você comerá a carne. Até hoje eu espero meu filé...

Outro pormenor que não pode passar despercebido é sobre a famigerada meritocracia. Quem têm méritos? Apenas os que possuem qualificação superior e vocação para capachos? Não teria méritos a faxineira que limpa o escritório para você trabalhar sem baratas? Será que um carteiro que trabalha 12 horas por dia, sol a sol, caminhando com um andarilho no deserto, não teria méritos?

Todos os trabalhadores têm méritos, todos têm importância dentro de um contexto social. Se a faxineira não limpar a sala, os ratos tomarão conta, as doenças se proliferarão. Se um carteiro não entregar as cartas você não receberá suas encomendas, não pagará seus boletos.

O cidadão cresce com a ideia que ostentação aquilata respeito. Assim, o motoboy gasta 50% do seu salário em um tênis garboso e importado, paga 24 prestações para exibir seu iPhone de ponta e faz crediário para adquirir uma TV 200 polegadas 4K. Trata-se de um cidadão exibiciniosta, iludido por ganhar respeito em seu meio. E esta será seu fim. Ele quer ser igual ao afetado dos Jardins. Quanta ilusão, ele continuará a ser pobre e ser visto como pobre.

Isso não significa que as pessoas não devem buscar o melhor, claro que não! Mas, chegar à condição de semi miserável com o mote de elevar a autoestima e obter vanglórias é no mínimo um pensamento pequeno e presunçoso.

O abastado passa com seu carrão, e eu não estou nem aí. O empinado usa Lacoste, eu nem chego a notar o jacarezinho. O metidinho à besta tem um iPhone 3000 e eu nem olho pra sua mão. Eu simplesmente não dou valor algum para o que as pessoas exibem. Eu reconheço o que elas têm por dentro, e não por fora.

A riqueza, o endinheiramento, o poder podem ser grandes armadilhas cármicas. A pobreza também.



Entre as lições espirituais de A Odisseia

Entre as lições espirituais que a obra, tanto de Homero, quanto de Nolan, ensina, está no papel de autônomo e de soberano.  Sim, Odisseu, ap...