PARTE DO BRASIL QUER MUDAR PARA O RETROCESSO

Eu tinha tudo para ser coxinha. Minha família inteira é um buffet. Lembro-me que minha mãe me contou que, certa vez, a minha avó, nos idos anos 60, anunciou em um jornal: - precisa-se de empregada branca.

Cresci vendo os desfiles de 7 de setembro na Avenida D. Pedro, no Ipiranga, berço da Independência. Adorava os cavalos com os Dragões. Ouvia Os Incríveis e os velhos sloogans "Brasil ame-o ou deixe-o" , além das canções encomendadas do Dom & Ravel: "Este é um País que vai Pra Frente". Roberto Carlos fazia muito sucesso, mas as músicas estrangeiras dominavam. Discoteque!!!

Lembro-me das noites com o Flávio Cavalcanti, da Semana do Presidente nos intervalos do Silvio Santos. Eu estava lá, menino, quando os moradores da Coronel Frias fecharam a rua pra comemorar a Copa de 70 (quando o Maluf deu um fusca para cada jogador).

Nas televisões branco e pretas, além dos programas de auditório, séries estadunidenses como "Perdidos no Espaço", "Jeannie é um gênio" e "A Feiticeira" pipocavam entre as pipocas feitas com óleo de milho Mazola em panela com tampa.

Os carros eram bem feios... Só a classe média e alta tinham. Pobre andava de ônibus ou trolebus. Não havia metrô. Eu lembro que meu tio  visitava minha casa, no Ipiranga, com o seu Mercedes Bens estacionado com o choffer. Minha irmã até hoje não gosta do Ipirangão por ser essa gente diferenciada (antes era mais..).

Avião? A Pan Air era a principal companhia, mas foi desbancada (por questões políticas) pela Varig. Viajar de avião era um alvo muito distante e caro. Disney só em sonho. Europa, só para milionários.

E as roupas? Pobre era esfarrapado. Grifes como Soft Machine e Fiorucci só as cocotas e os empinadinhos (não havia os termos mauricinho e patricinha).

Negro tinha cabelo pixaim, não havia chapinha. E todos falam de cabelo carapinha deles. Os brancos diziam que eles quando não cagavam na entrada, cagavam na saída. Tinha piada de negro pra todos os lados.

Homossexual era motivo de chacota e apanhava na rua (e continua apanhando). Lésbica só em revista sueca de sacanagem.

Fumar era status. Bebia-se Cuba Libre e só tinha duas cervejas: Brahma e Antartica. A Skol em lata chegou depois.

A vida cotidiana era assim: os miseráveis e favelados (a maioria taxada de bandidos), os pobres, mas limpinhos (que eram e tinham que ser subservientes), a classe média (que sempre se fodeu, mas gostava disso), e os ricos (que eram seres superiores).

E assim caminhamos durante tantos e tantos anos... desde 1500 até 2002, quando entrou um governo de esquerda (não tão radical) e começou a mudar este cenário. E é justamente pela mudança deste padrão é que boa parte dos brasileiros desejam a mudança! A mudança para o que era antes... A mudança para o retrocesso.

Eles não suportam ver a erradicação da miséria e da fome porque se alimentavam dela. Não aguentam ter que dividir os assentos do avião com o negro, o pobre e o nordestino. Detestam ver um trabalhador com um carro melhor que o deles. E não aguentar mais calar aquelas velhas frases de ódio racial que bradaram durante tantos anos...

Hoje eles se apegam a qualquer coisa que os livre deste presente, rumo ao passado!

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