A escravidão sempre deixa marcas mesmo depois de estarmos livres das correntes. Fica a marca no pulso que nos faz lembrar...
Existem amores escravos que mesmo depois dos temporais continuam a doer. Mas, qual será a razão? São amores obsediados, que se retroalimentam um do outro. Não conseguem desfazer seus nós. Quando o fio começa a ficar mais tênue, quase apagado, lá vem um dos elementos desta relação a tocar fogo, surgir do nada, jogar a isca. E a corrente que prende um ser ao outro volta a se fortalecer. É um círculo vicioso e sofrível que nunca é quebrado porque os dois se alimentam e permanecem nesta obsessão. Ou por amor, ou por vaidade, ou por vingança, ou por medo, ou por ego ou ou ou...
Todavia, só há uma maneira de se libertar disso: os as duas partes assumem definitivamente o amor e partem para edificá-lo ou uma ou as duas partes assumem o desamor, o desalento, e tomam uma postura final: o de não suportar mais a dor e quebrar de vez o elo que os prende.
Acabo de quebrar esta corrente. Estou assumidamente triste, mas liberto! Eu consigo sentir amor, lutar bravamente por quem amo, relevar, perdoar, até esperar o momento das pessoas, mas quando não há mais tempo, saúde e dignidade, eu prefiro pulverizar de uma vez o que me prende para nunca mais. Eu me escolho. Sempre foi assim e sempre será. O pior de tudo é que na grande maioria das vezes, o outro lado que não ama de fato, acaba de arrependendo tarde demais e quando quer recuar já não há mais como fazê-lo. Eu já ouvi declarações de amor 20 anos depois da ruptura...
O que eu quero dizer é que chega uma hora que esta dor e este sofrimento não tem mais cabimento dentro do nosso coração. E que o alimento de quem nos escraviza por vaidade, medo ou egoísmo, deve ser direcionado a outra pessoa que vibra com a mesma intensidade.
Temos um vazio. Este vazio pode ser simbolizado por um círculo. As vezes, queremos preenher este vazio com um triângulo ou um quadrado. O que acontece? A gente se fere com as pontas porque o triangulo não vai encaixar, o quadrado também não. Temos que buscar compatibilidades.
Agora eu enxerguei isso. E eu tinha esperanças que aquele quadrado que me feria com as pontas se transformasse em um círculo com o tempo. Mas, não. Ela tem os olhos frígidos e as atitudes frias. Não tem a sensibilidade que uma verdadeira dama deve ter. Mulher mesmo, não garotinha, sabe? Pula de relação em relação em busca do nada afetivo. Não sabe ler o poema da vida, não brilha sua espiritualidade, apenas sobrevive. Certamente, por medo, por vaidade, por ego, me escravizou com a minha permissão. Agora estamos livres, assinei essa carta de alforria e joguei-a no seu quintal. Ela não precisa do meu amor, ela precisa aprender a amar. E a respeitar o outro.
Mas, agora o poço está vazio e só há folhas secas.
Tudo bem, ela vai mudar de foco, de poço, de corpo, de obsessão. E sofrer, e fingir que está bem. Endurecer e encontrar outra vítima, sendo que a principal vítima é ela mesmo. Sem amor, ela perecerá.
E eu vou ficar em paz, com meu amor, e ser feliz porque estou livre.
